Sambar é Filosofar
By Não Deixe o Samba Morrer on 04:36
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A filosofia é o mais alto grau do saber e sambar é filosofar. Não pode existir um povo triste quando ele sabe cantar e o seu canto é de pura alegria. Sem dúvida é porque esta gente tem um destino risonho e feliz. O samba é a alegria do nosso povo e não há nada mais brilhante em acordes, mais bonito em melodia que este ritmo nascido na Bahia e que hoje pertence ao Brasil.
Surgido nas senzalas, nos canaviais, descido dos morros, criado nos embalos das vozes e dos cantores anônimos, o samba vale, hoje em dia, como autêntica representação da nossa terra em outras partes do mundo. Nos dias presentes, o Brasil identifica-se no universo musical pela sua beleza, ritmo e alegria.
É tempo de balanço, é época de samba. Façamos uma reflexão!
Matriz principal da música popular brasileira, o gênero diversifica-se a cada passo dando prova de uma vitalidade extraordinária e o seu espetáculo a cada momento atrai um verdadeiro fluxo turístico. Recriado em linguagem teatral, a riqueza e a diversidade dos seus passos é uma apresentação suntuosa.
Nesta Bahia tão rica de ritmos, o precursor foi o samba, que muitas vezes, no tempo dos opressores pagou um alto preço na senzala e nos terreiros. Mas, para desgosto dos “senhores” e para a nossa felicidade, cada chibatada desferida conta o corpo do negro “sambista” transformava-se em uma nova forma, um novo passo, em uma nova coreografia, com requebros sensuais e provocativos que nenhum outro ritmo é capaz de produzir.
É claro que neste imenso universo há espaço para todas as músicas e todos os gostos. Até para música e gostos duvidosos. Mas é imperioso, obrigação de todos nós, sobretudo nós baianos, guardar no lugar mais amplo dos nossos corações, da nossa mente e até nos nossos pés, o samba na sua forma mais pura, não deixando que ele se acabe, ou que acabem com ele, para que não tenhamos que chorar mais tarde, em ritmo de valsa.
Não Deixe o Samba Morrer não é um movimento isolado ou um grupo nostálgico que quer relembrar as “desaparecidas” escolas de samba da Bahia, da Chula cantada e dançada no Recôncavo e nos bailes públicos de Salvador de outrora, bem como de outras manifestações puras e lindas a exemplo das marchinhas e marcha-rancho. Não Deixe o Samba Morrer é um pouco de nós baianos, da nossa cultura, legado do mais puro deixado por nossos antepassados. Não queremos a sua presença nas ruas e praças somente neste carnaval, nem nos próximos, mas em todos, todos os dias de nossas vidas porque a cultura de um povo não tem dia, hora ou tempo marcado para ser mostrada, exercida e protegida.
Nós sambistas que amamos a nossa música, que tomamos como hino de louvor à pátria, que nos é trazido de geração a geração, com carinho, devotamento, não devemos assisti-lo morrer sem que levantemos o nosso brado de alerta.
Em nome da cultura e da nossa gente Não Deixe o Samba Morrer.
O samba é a escola...
Nós a saudamos ó bela e majestosa cidade
E cantamos uníssonos
Salvador de Todos os Santos e de Todos Nós
Não Deixe o Samba Morrer
Assim, no cenário aformoseado do Pelourinho, num dos recantos mais pitorescos, instalou-se rutilante, com requintes de fidalguia e por que não dizer, num quilombo verdejante, o Não Deixe o Samba Morrer. Sua arma ardilosa é seu canto e seu canto é o samba imortal. Pronto está para impor, novamente, nas ruas e nas vozes das suas centenas de participantes, o sim dolente, apaixonado e mestiço do verdadeiro samba baiano e brasileiro. A esse pugilo de pugnadores a História jamais olvidará o mérito da causa que abraçou. E seus nomes glorificados, o povo há de conservá-los como símbolo da resistência, na luta que mantiveram nesta velha e briosa cidade, resguardando seus ideais. E assim, como recebemos o samba de gerações passadas, haveremos de devolvê-lo ilibado às gerações do porvir.
Fomos sim os pioneiros no retorno e na força do samba, no desfile carnavalesco de Salvador, bem como introdutores do desfile no carnaval do Pelourinho, já em 1993, tendo sido originado conosco e oficializado, somente, em 1996.
Lúcio Nery
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